Introdução
Esperas um castelo empoleirado numa colina, mas o Castelo Ursino recebe-te no coração de Catânia, quase ao nível do mar, rodeado por palácios barrocos. É um contraste estranho que salta logo à vista: esta fortaleza medieval maciça, com as suas muralhas espessas e torres quadradas, parece quase deslocada numa cidade tão barroca. E, no entanto, é precisamente isso que o torna fascinante. Saindo da Piazza Duomo, com a sua elegância setecentista, e entrando na via dei Crociferi, o impacto visual é forte. Vês-no surgir ao fundo da rua, um bloco de pedra lávica escura e compacta que conta uma história diferente de tudo o resto. Não é apenas um monumento, é um pedaço da cidade que resistiu a terramotos e fluxos de lava, tornando-se um símbolo tenaz. Entrar no seu pátio interior, hoje uma praça pavimentada, dá logo a sensação de estar noutra época, longe do caos do mercado da Piazza Carlo Alberto que passa veloz ao seu lado.
Breve história
A sua história está intimamente ligada a Frederico II da Suábia, o imperador que o mandou construir no século XIII como símbolo do poder real na Sicília. Não era apenas uma residência, mas sim uma verdadeira fortaleza defensiva. O curioso é que originalmente se erguia num promontório à beira-mar, mas as correntes de lava do Etna de 1669 mudaram para sempre a geografia, soterrando as suas fundações e afastando-o da costa. Viveu de tudo: de residência real aragonesa a quartel, e até mesmo prisão. Hoje, após uma importante restauração, alberga o
Museu Cívico de Catânia, com uma coleção que vai da arqueologia à pinacoteca. A linha do tempo dos seus momentos-chave é a seguinte:
- 1239-1250: Construção por ordem de Frederico II da Suábia.
- 1669: A corrente de lava do Etna modifica radicalmente a sua aparência e posição em relação ao mar.
- 1693: Resiste milagrosamente ao terrível terramoto que destruiu grande parte de Catânia.
- 1934: É restaurado e destinado a tornar-se museu cívico.
O museu dentro da fortaleza
Visitar o museu aqui dentro é uma experiência particular. Não é o percurso habitual e asséptico: caminha-se entre armaduras e cerâmicas medievais nas mesmas salas onde outrora viviam os soberanos aragoneses. A sensação é de explorar, mais do que simplesmente observar. A coleção é variada: pode-se passar de uma sala com vasos gregos encontrados na cidade para outra com pinturas sicilianas do século XVII. A mim, pessoalmente, impressionaram-me os achados da Catânia romana, porque fazem perceber quantas camadas de história existem sob os nossos pés. As salas do rés-do-chão, as mais maciças, costumam acolher exposições temporárias. Uma sugestão? Não perca a vista das seteiras das torres: enquadram recortes de Catânia de forma única, como fotografias naturais do tecido urbano. A atmosfera é recolhida, por vezes um pouco húmida e fresca, típica das pedras antigas, mas faz parte do fascínio.
Os detalhes que contam
Para além das grandes salas, é nos pormenores que se capta a alma do lugar. Repare nas marcas de pedreira nas pedras de lava das muralhas exteriores: sinais deixados pelos canteiros medievais, uma assinatura humana num material tão poderoso e natural como a lava. Depois, há os brasões heráldicos sobre alguns portais, desbotados pelo tempo mas ainda reconhecíveis, que falam das famílias que aqui viveram. No pátio, procure a cisterna para recolha de água da chuva: um pormenor prático da vida quotidiana numa fortaleza. E as escadas em caracol nas torres? São estreitas, escuras, e subi-las é uma pequena viagem no tempo. Sente-se um pouco como as sentinelas se deviam sentir há séculos. São estes elementos, muitas vezes negligenciados, que para mim transformam a visita de uma lição de história numa experiência tátil e quase íntima com o passado.
Porque visitar
Por pelo menos três razões concretas. Primeiro, é a maneira mais imediata de tocar com as mãos a Catânia medieval numa cidade dominada pelo barroco. Segundo, o museu cívico no seu interior é compacto mas rico: numa hora ou pouco mais tem-se uma excelente panorâmica sobre a história da cidade, da antiguidade à arte moderna, sem ter de correr para vários locais dispersos. Terceiro, a sua posição central torna-o perfeito para o incluir em qualquer itinerário diário: pode combiná-lo facilmente com uma visita à Catedral, uma paragem no mercado de peixe ou um passeio pela via Etnea. É um concentrado de história e cultura acessível, sem floreados, que dá substância à visita a Catânia.
Quando ir
A melhor altura? Sem dúvida o início da tarde, especialmente nos meses mais quentes. As paredes grossas do castelo criam um refresco natural em relação ao sol abrasador de Catania. As salas interiores são frescas, quase acolchoadas, e a luz que entra pelas janelas altas é lindíssima. No inverno, por outro lado, uma manhã limpa pode proporcionar uma luz rasante que realça os volumes da pedra de lava. Evite as horas de ponta do fim de semana se preferir um pouco de tranquilidade. Eu estive lá no meio da tarde de uma terça-feira de setembro e foi perfeito: pouca gente, silêncio quebrado apenas pelos passos nas pedras, e aquela atmosfera suspensa que só os lugares antigos sabem dar.
Nos arredores
Ao sair do castelo, tens duas opções temáticas próximas que enriquecem o contexto. A dois passos, na Piazza Duomo, está a Fonte do Elefante (u Liotru), o símbolo da cidade, esculpida em pedra vulcânica e com uma história lendária por trás. É a ligação perfeita entre a época medieval do castelo e o barroco catanês. Ou, se quiseres continuar no fio da história antiga, dirige-te para o Teatro Romano e o Odeon, a poucos minutos a pé na via Vittorio Emanuele. São vestígios romanos bem conservados, incrustados entre os edifícios, que mostram outra camada fundamental da cidade. Duas experiências diferentes, mas ambas fazem-te perceber como Catânia é um palimpsesto vivo de épocas.