Museu da Obra do Duomo: um mergulho na arte florentina
Caminhar entre as salas deste museu é como entrar no canteiro de obras mais ambicioso da Florença medieval e renascentista. Bem atrás da catedral, ainda se respira o perfume da história. Aqui, onde Brunelleschi e Michelangelo deixaram a sua marca, hoje encontram casa mais de 750 obras. Estátuas, relevos, modelos de madeira e ourivesarias que vêm do Duomo, do Batistério e do Campanário de Giotto. O percurso é enorme: 28 salas, três andares, 6.000 metros quadrados. Mas não assusta: as instalações de vídeo e os painéis claros guiam-te sem pressa. O meu conselho? Partam da Sala do Paraíso e deixem-se surpreender pela fachada reconstruída em escala real. É um espetáculo que poucos esperam.
Notas históricas
O edifício que abriga o museu é o mesmo onde, desde 1296, a Opera del Duomo geria as obras da catedral. No século XV, Brunelleschi usava o pátio como depósito para os materiais da Cúpula; Michelangelo, algumas décadas depois, esculpiu ali o Davi. O museu abre oficialmente em 1891, mas a virada acontece em 2015: após três anos de restauro, reabre com uma exposição em 6.000 m². Uma história de sete séculos, contada também por documentos e modelos originais. Em resumo:
- 1296: nasce a Opera del Duomo, encarregada da construção da catedral.
- 1432: cria-se uma sede para conservar as obras removidas.
- 1500 ca.: Michelangelo esculpe o Davi no pátio.
- 1891: o museu abre ao público.
- 2015: reabertura após a ampliação de Adolfo Natalini.
A Sala do Paraíso: a fachada reencontrada
O ex libris do museu é esta sala monumental que reconstrói em escala 1:1 a fachada medieval do Duomo, desmontada em 1587. As estátuas originais de Arnolfo di Cambio e dos seus sucessores regressam assim ao seu lugar, numa espécie de viagem no tempo. No centro da sala, separada por uma vitrina, está a Porta do Paraíso de Lorenzo Ghiberti: dez painéis dourados que narram histórias do Antigo Testamento. Foi o próprio Michelangelo que a batizou assim. A luz rasante faz brilhar o ouro e cada detalhe. Caminhar entre estas estátuas é como assistir ao nascimento de uma obra-prima coletiva.
Donatello e Michelangelo, duas obras-primas imperdíveis
Existe um fio vermelho que une as duas obras mais célebres do museu: a Madalena e a Pietà. A Madalena penitente de Donatello é uma escultura em madeira do século XV: uma mulher idosa, consumida pelo jejum e pela oração, envolta nos cabelos. Não é certamente uma beleza clássica, mas toca diretamente o coração. Por outro lado, a Pietà Bandini de Michelangelo (c. 1547-1555) conta um momento diferente, mais íntimo. Jesus é sustentado por Nicodemos, que tem o rosto do próprio artista. Michelangelo esculpiu-a para o seu túmulo e, depois, insatisfeito, danificou-a. Ver de perto o mármore inacabado, os vestígios dos cinzéis, arrepia.
Por que visitar
A parte os nomes enormes, este museu tem algo a mais: faz-te entender como nasce um monumento. Não é um simples recipiente de estátuas, mas o relato do estaleiro de obras mais longo da história florentina. Eis os motivos para não o saltar. Primeiro: a coleção de Donatello é a segunda mais ampla do mundo, com o Zuccone e o Sacrifício de Isaac. Segundo: a Sala do Paraíso permite-te ver a fachada original do Duomo, que hoje já não existe na praça. Terceiro: o percurso é interativo, com vídeos e modelos que explicam a Cúpula de Brunelleschi, adequado também para quem não é especialista em arte.
Quando ir
O melhor momento, na minha opinião, é de manhã cedo, antes de chegarem os grupos. Em silêncio, a Sala do Paraíso tem um efeito quase teatral: as estátuas parecem despertar uma a uma. Se preferirem uma luz mais quente e menos multidão, experimentem no final do dia, quando os raios de sol entram pelas janelas e iluminam os bronzes de Ghiberti. Para uma visita mais tranquila, evitem os fins de semana e os meses de alta estação, quando a fila para o bilhete único se alonga. Mas mesmo com a multidão, vale a pena.
Nos arredores
Ao sair do museu, já estão no coração da Piazza del Duomo. A paragem natural é o Batistério de São João, com os seus mosaicos dourados e as portas de Ghiberti (caras, as verdadeiras estão no museu). Depois, se tiverem tempo, subam ao Campanário de Giotto: a vista sobre a Cúpula do Brunelleschi e sobre toda a Florença é fantástica. Sempre a dois passos, para um mergulho na cidade, podem passear até ao Palazzo Vecchio ou espreitar o Museu Galileo. Cada canto, aqui, merece uma foto.