Introdução
Já lhe aconteceu caminhar por uma cidade e sentir-se subitamente atraído por um edifício? Em Trieste, o Teatro Lírico Giuseppe Verdi tem exatamente esse efeito. Não é apenas um teatro, é uma instituição que domina a Piazza dell’Unità d’Italia com a sua fachada neoclássica, severa e majestosa. Por dentro, porém, é outra história: uma explosão de estuques dourados, veludos vermelhos e aquela típica atmosfera acolhedora que faz com que se sinta imediatamente parte de algo especial. Para mim, é o coração pulsante da cultura triestina, um lugar onde a arquitetura fala por si só e a promessa de uma noite inesquecível está sempre no ar. Não é preciso ser um especialista em ópera para apreciá-lo; basta levantar o olhar e deixar-se cativar.
Breve Histórico
A história do Teatro Verdi está intimamente ligada à burguesia triestina do século XIX, que desejava um teatro à altura da cidade. Foi projetado pelos arquitetos Matteo Pertsch e Giovanni Scalmanini, inspirando-se no Teatro alla Scala de Milão. A inauguração, em 1801, foi um enorme evento social, com a ópera “Ginevra di Scozia” de Johann Simon Mayr. Ao longo dos anos, recebeu maestros do calibre de Gustav Mahler e compositores como Richard Strauss. Resistiu a guerras e mudanças, sendo reformado várias vezes, a última nos anos 90, para devolver-lhe o seu antigo esplendor.
- 1801: Inauguração como Teatro Nuovo.
- 1901: Dedicação a Giuseppe Verdi, por ocasião do centenário da sua morte.
- Segunda Guerra Mundial: Gravemente danificado por bombardeamentos.
- 1997: Reabertura após uma longa e cuidadosa restauração.
Por trás das cortinas da temporada lírica
O que adoro no Verdi é que não é um museu estático. É vivo. A sua temporada lírica é um compromisso fixo para a cidade e atrai apaixonados de toda a região. Não espere apenas os grandes clássicos como ‘La Traviata’ ou ‘Rigoletto’ (que também estão lá); muitas vezes propõem títulos menos conhecidos ou produções contemporâneas muito interessantes. A acústica é considerada uma das melhores de Itália, um detalhe não menor se pensarmos na potência de uma orquestra na fossa. Um conselho sincero: mesmo que não consiga ver uma ópera, tente assistir a um dos concertos de sexta-feira ou a um concerto sinfónico. É uma forma mais acessível de viver a magia desta sala, sem o formalismo por vezes intimidatório da lírica. A atmosfera é mais descontraída, mas a emoção é garantida.
A arquitetura que conta
Entrar na sala principal é uma experiência visual que tira o fôlego. A planta é em forma de ferradura, com quatro ordens de camarotes e uma ampla galeria. Cada camarote é uma pequena sala privada, com cortinas de veludo que podem ser fechadas – um legado dos tempos em que o teatro também era um local de encontros sociais e fofocas. O teto afresco é outro ponto forte: retrata Apolo e as Musas, e é iluminado por um enorme lustre de cristal da Boémia. Às vezes, durante os intervalos, paro apenas para observar os detalhes: os estuques, os capitéis, as dourações que brilham sob a luz. É uma arquitetura que não quer ser discreta; quer surpreender-te e fazer-te sentir importante. E consegue muito bem, mesmo que estejas sentado na galeria.
Por que visitar
Primeiro, para viver um pedaço da Trieste autêntica. Este teatro é um símbolo da cidade há mais de dois séculos, amado pelos triestinos. Segundo, pela acessibilidade cultural: além da ópera, a programação é rica em concertos, balé e teatro, com preços muitas vezes mais acessíveis do que em outros teatros italianos. Terceiro, pela posição imbatível: fica na Piazza dell’Unità d’Italia, de frente para o mar. Você pode facilmente combinar uma visita cultural com um passeio no cais ou um café em um dos históricos estabelecimentos próximos. Não é uma atração para ‘marcar’ e ir embora, mas um lugar para viver com calma.
Quando ir
A temporada lírica propriamente dita geralmente vai de outubro a maio, sendo o período de maior atividade. Mas, na minha opinião, o momento mais sugestivo é uma tarde de inverno, quando a luz rasante do sol baixo ilumina a fachada branca e o mar cinzento faz contraste. Lá dentro, com os aquecedores ligados e pouca gente por perto, respira-se uma atmosfera íntima e acolhedora. No verão, por outro lado, o teatro às vezes organiza eventos especiais ou pequenos concertos, e a área da praça fica animada até tarde. Talvez evite os dias de grandes espetáculos se procura tranquilidade, mas para a experiência completa, um sábado à noite de inverno com a chuva batendo nos vidros tem o seu lado romântico.
Nos arredores
Ao sair do teatro, dê um passeio até o Caffè degli Specchi, localizado na Piazza dell’Unità d’Italia. É histórico, elegante e o lugar perfeito para discutir o espetáculo que acabou de assistir, saboreando um café ou um aperitivo. Se preferir continuar no tema cultural, a poucos minutos a pé está o Museo Revoltella, uma galeria de arte moderna com uma coleção permanente notável e exposições temporárias frequentemente interessantes. É um belo contraste entre a arte do século XIX do teatro e as vanguardas do século XX, tudo num raio de poucas centenas de metros.