O Parque Nacional do Gran Sasso e Monti della Laga, com acesso a partir de Villa Celiera na província de Pescara, é um paraíso para quem busca natureza intocada e trekking acessíveis. Aqui você encontra percursos bem sinalizados que adentram faias seculares e oferecem vistas deslumbrantes dos picos do Gran Sasso, tudo a poucos quilômetros do mar Adriático.
Trilhas para todos os níveis: da fácil caminhada no Bosco di S. Antonio aos percursos mais desafiadores em direção às altitudes mais elevadas.
Biodiversidade única: habitat do camurça dos Apeninos e da águia-real, com florações primaveris espetaculares.
Antigas aldeias: partida de Villa Celiera, com seu centro histórico bem preservado e atmosfera autêntica.
Acessibilidade e informações práticas: estacionamentos gratuitos na entrada das trilhas, nenhum bilhete de entrada no parque, pontos de restauração nas aldeias próximas.
Introdução
Chegar a Villa Celiera, no Parque Nacional do Gran Sasso e Monti della Laga, é como entrar numa outra dimensão. Não é apenas um parque, é uma experiência que te envolve imediatamente. As faias seculares abrem-se para trilhas que parecem desenhadas propositadamente para quem procura silêncio e paisagens de tirar o fôlego. Daqui, o Gran Sasso aparece mais majestoso do que nunca, com aqueles cumes que mudam de cor com a luz do dia. Caminhando, pode acontecer deparar-se com antigas trilhas de mulas pavimentadas, testemunhas de um passado rural que aqui resiste. O ar tem um cheiro de terra húmida e madeira, e se tiver sorte, poderá ouvir o chamamento de um pica-pau ou avistar um veado entre as árvores. É um lugar que não se espera, longe do caos, perfeito para desligar verdadeiramente. Eu voltei lá várias vezes, e cada vez descubro um novo recanto, um trilho diferente. Talvez seja mesmo isso o mais bonito: nunca deixa de te surpreender.
Breve histórico
A região de Villa Celiera tem uma história intimamente ligada à transumância e à vida pastoral. Durante séculos, estas trilhas eram percorridas por rebanhos que desciam em direção ao Tavoliere das Puglias.
Na Idade Média, o território fazia parte das possessões da Abadia de São Clemente em Casauria, um centro religioso e de poder que influenciou o seu desenvolvimento. Mais recentemente, durante a Segunda Guerra Mundial, a área foi palco de passagens e refúgios para partisans e população em fuga, aproveitando a conformação acidentada para se esconder. Hoje, esse passado lê-se nas pedras dos muros de pedra seca, nas carvoarias agora quase esquecidas e nos topónimos que contam de atividades já desaparecidas. Não é uma história de grandes eventos, mas de vida quotidiana, esforço e adaptação à montanha.
- Idade Média: controlo da Abadia de São Clemente em Casauria
- Séculos XVII-XIX: picos da atividade pastoral e da transumância
- Segunda Guerra Mundial: utilização como zona de refúgio e passagem
- 1991: instituição do Parque Nacional do Gran Sasso e Monti della Laga
O Caminho das Carbonarias
Um dos percursos mais característicos aqui é o que leva às antigas carbonarias. Não é um caminho qualquer, mas um mergulho num ofício quase desaparecido. Caminhando, ainda se veem as clareiras circulares onde outrora se empilhavam as lenhas para produzir carvão. O solo é escuro nesses pontos, sinal do trabalho intenso que ali se realizava. O caminho serpenteia suavemente entre as faias, com alguns trechos mais íngremes mas sempre transitáveis. Num certo ponto, a vegetação rareia e abre-se uma vista incrível sobre o vale do Tavo e, ao longe, sobre o mar. É um contraste que deixa sem palavras: a montanha áspera e o azul do Adriático. Ao longo do percurso, notei muitos cogumelos (mas atenção, apenas para fotos se não for especialista!) e líquenes que cobrem as rochas. Recomendo percorrê-lo de manhã, quando a luz é rasante e acentua as cores do bosque. Leve água e algo para petiscar, porque lhe dará vontade de parar para apreciar a paisagem.
Biodiversidade ao alcance da mão
Aqui a natureza não é um pano de fundo, é protagonista. O parque é um hotspot de biodiversidade, com espécies que noutros locais têm dificuldade em sobreviver. Durante os meus passeios, avistei várias vezes a águia-real a planar alto no céu – um espetáculo que não se esquece. Mas não são precisos binóculos para apreciar a variedade: basta olhar à volta. As florestas de faias misturam-se com bordo e carvalho-cerquinho, e na primavera o sub-bosque enche-se de flores como a heléboro e a scila. Se estiveres em silêncio, poderás encontrar o gato-bravo ou a fuinha, embora sejam tímidos. Um detalhe que me impressionou é a presença do lobo-apenínico: nunca o vi, mas os vestígios e os relatos dos locais confirmam que está em casa. Não é perigoso, pelo contrário, é um sinal de que o ecossistema está saudável. Para mim, esta riqueza faz a diferença: não estás apenas a caminhar, estás a atravessar um ambiente vivo e complexo. Leva um guia da flora e fauna local, tornará a experiência ainda mais interessante.
Por que visitar
Três razões concretas para colocá-lo na agenda. Primeira: acessibilidade. De Villa Celiera partem trilhas adequadas a diferentes níveis, desde caminhadas fáceis até trekking mais exigentes em direção às altitudes mais elevadas. Não é preciso ser alpinista para aproveitá-lo. Segunda: autenticidade. Aqui não se encontram barraquinhas ou multidões de turistas. É um lugar ainda genuíno, onde o único ruído é muitas vezes o vento entre as árvores. Terceira: variedade paisagística. Em um único dia pode-se passar de bosques sombrios a prados ensolarados com vista para os picos, até vislumbres que chegam ao mar. É como fazer várias viagens em uma. E depois, há a sensação de descoberta: muitas trilhas são pouco percorridas, parece que você é o primeiro a passar por ali. Para mim, que amo lugares fora do radar, foi um verdadeiro tesouro.
Quando ir
A escolha do momento certo depende do que procura. Eu prefiro o final da primavera ou o início do outono. Em maio e junho, os bosques explodem de verde, o ar é fresco e os dias são longos. Em setembro e outubro, por outro lado, a floresta de faias tinge-se de amarelo e vermelho, criando um tapete colorido sob os pés – um espetáculo que vale a viagem. O verão pode ser quente nas horas centrais do dia, mas a manhã cedo ou o final da tarde são perfeitos para caminhadas, com a luz dourada que torna tudo mágico. No inverno, com a neve, a paisagem transforma-se num postal, mas alguns trilhos podem ser intransitáveis sem equipamento adequado. Um conselho pessoal: evite os fins de semana de pleno agosto se não gosta de companhia, também aqui se vê mais alguma gente. Mas, em geral, é um lugar que oferece emoções em todas as estações, basta vestir-se em camadas.
Nos Arredores
Se tiver tempo, vale a pena ampliar a exploração. A poucos quilómetros fica Farindola, famosa pelo queijo pecorino canestrato e pelo cânion do Vallone di Faraone, um lugar selvagem e sugestivo onde a água esculpiu a rocha. Outra ideia é visitar uma das aldeias medievais encravadas da região, como Civitella Casanova ou Carpineto della Nora, onde se pode perder por ruas estreitas e provar a cozinha pobre mas saborosa dos Abruzos numa típica trattoria local. São experiências que completam a viagem, acrescentando um pedaço de cultura e sabor à natureza já extraordinária do parque. Não são lugares sobrelotados, mantêm aquele carácter autêntico que torna toda a área especial.