O Parque Arqueológico de Tuvixeddu é a maior necrópole púnica do Mediterrâneo, com mais de mil túmulos escavados na rocha calcária desde o século VI a.C. Caminhe entre túmulos de câmara orientados para oeste, alguns decorados como a Tumba do Ureus com a serpente sagrada, numa área ao ar livre que une história e paisagem.
- Mais de mil túmulos púnicos escavados na rocha calcária, alguns com decorações originais
- Vista panorâmica sobre o Golfo de Cagliari e sobre a cidade a partir das partes altas da colina
- Tumba do Ureus com símbolo da serpente sagrada esculpido na entrada
- Vegetação mediterrânea com oliveiras-bravas, estevas e trilhas de terra bem sinalizadas
Introdução
Assim que chegas, Tuvixeddu impressiona-te. Não é um sítio arqueológico qualquer, mas uma colina escavada no calcário, pontilhada por centenas de túmulos que parecem olhos vazios a olhar para o mar de Cagliari. A sensação é estranha, quase surreal: estás no coração de uma cidade moderna, mas rodeado por uma necrópole púnica com mais de dois mil anos. O ar é seco, o silêncio é quebrado apenas pelo vento que assobia entre as rochas. Caminhas por trilhos de terra, entre arbustos de lentisco e maquis mediterrânico, e cada passo leva-te mais atrás no tempo. Não esperes reconstruções ou museus luxuosos: aqui a atmosfera é crua, autêntica. Parei para observar um dos maiores túmulos, o Túmulo do Ureo, e pensei em quanta história passou por aqui. É um lugar que fala por si, se souberes ouvir.
Notas históricas
Tuvixeddu não nasceu ontem. Os Cartagineses, aqueles que chamamos de Púnicos, começaram a escavar estas tumbas de câmara no século VI a.C., quando Cagliari ainda era Karaly. Usaram-nas durante séculos, até à chegada dos Romanos. Depois, na Idade Média, o local foi quase esquecido, usado como pedreira ou para atividades agrícolas. Só no século XX, com as escavações arqueológicas, se compreendeu a sua importância:
é a maior necrópole púnica do Mediterrâneo, com mais de mil tumbas escavadas na rocha. Algumas são simples, outras decoradas com símbolos religiosos. A história aqui está estratificada, literalmente.
- Século VI a.C.: início do uso como necrópole púnica
- Século III a.C.: período de utilização máxima
- Época romana: abandono gradual
- Século XX: redescoberta e escavações arqueológicas
- Hoje: parque arqueológico visitável
As tumbas que contam histórias
Nem todas as tumbas são iguais. As de Tuvixeddu têm características diferentes que revelam muito sobre a sociedade púnica. As mais simples são pequenas câmaras retangulares, acessíveis por um poço vertical: provavelmente para pessoas comuns. Depois há as mais elaboradas, como a Tumba do Ureo, que recebe o nome da serpente sagrada (o ureo) esculpida na entrada. Esta é uma das poucas decoradas, e ver aquele símbolo religioso ainda visível depois de milénios causa um certo efeito. Outras tumbas têm nichos para oferendas funerárias. Caminhando entre elas, nota-se como estão orientadas para oeste, de acordo com o ritual púnico. Não encontrarás corredores ou objetos in situ (estão nos museus), mas a própria arquitetura fala. Tentei imaginar as cerimónias, os lutos, a vida quotidiana de uma civilização distante. É uma experiência que te faz sentir pequeno, mas também ligado a algo antigo e poderoso.
O parque hoje: entre natureza e arqueologia
Hoje, Tuvixeddu é um parque arqueológico-natural, um pouco selvagem e não muito ‘domesticado’. A vegetação mediterrânea reconquistou os espaços: há oliveiras-bravas, arbustos de esteva e, na primavera, florações espontâneas que acrescentam cor. Os caminhos são bem sinalizados, mas não asfaltados: move-se sobre terra e pedra, o que torna tudo mais aventureiro. Das partes mais altas da colina, a vista estende-se sobre o Golfo de Cagliari e sobre a cidade moderna, um forte contraste entre passado e presente. Não há grandes estruturas, apenas alguns painéis informativos. Talvez seja melhor assim: a atenção permanece nas tumbas e na paisagem. Notei que o local é frequentado por entusiastas da história, mas também por moradores locais que vêm fazer uma caminhada tranquila. É um lugar vivo, não uma relíquia embalsamada. Pessoalmente, gostei da mistura de arqueologia e natureza: não parece um museu, mas um pedaço de território que respira.
Porque visitar
Por três motivos concretos. Primeiro: é um sítio único no seu género. Necrópoles púnicas desta escala não se encontram por aí, e vê-las no contexto urbano de Cagliari é ainda mais surpreendente. Segundo: o acesso é fácil e económico (muitas vezes gratuito), ideal para uma visita espontânea sem demasiado planeamento. Terceiro: oferece uma perspetiva diferente sobre a Sardenha, longe das praias reluzentes: aqui toca-se com as mãos a história antiga da ilha, aquela fenício-púnica que muitas vezes é negligenciada. Além disso, se és apaixonado por fotografia, as geometrias das tumbas contra o céu azul são um espetáculo. Eu voltei lá duas vezes, porque a primeira visita me deixou com algumas perguntas a mais. Não é um lugar que se ‘consome’ em meia hora: merece tempo para absorver a atmosfera.
Quando ir
Evite as horas centrais dos dias de verão: o sol bate forte na colina calcária, e não há sombras. Eu prefiro o final da tarde, quando a luz é mais quente e as sombras alongam as formas dos túmulos, criando jogos visuais sugestivos. Na primavera e no outono é perfeito: as temperaturas são amenas, e a vegetação é exuberante (na primavera) ou colorida (no outono). No inverno, se não chover, pode-se desfrutar de um ar límpido e de panoramas nítidos sobre o golfo. Um dia de céu nublado pode até acentuar o caráter misterioso do lugar. Visitei também com uma chuva leve, e o cheiro da terra molhada misturado à pedra antiga era intenso. Enfim, quase sempre está bom, basta vestir-se em camadas e ter um pouco de espírito de adaptação.
Nos arredores
Se Tuvixeddu despertou a sua curiosidade sobre a Cagliari púnica e romana, vale a pena completar o quadro com duas paragens próximas. A poucos minutos de carro (ou de transportes públicos) encontra-se o Anfiteatro Romano de Cagliari, escavado na rocha como as tumbas de Tuvixeddu, mas para espetáculos de gladiadores. É impressionante pelas suas dimensões e pelo facto de ainda ser parcialmente utilizado para eventos de verão. Depois, no centro histórico, o Museu Arqueológico Nacional conserva os artefactos encontrados em Tuvixeddu e noutros locais: ver os ajuntamentos funerários, a cerâmica, as estátuas dá contexto ao que viu ao ar livre. São duas experiências complementares: uma faz-nos viver a atmosfera do local, a outra explica os detalhes. Eu fiz assim, e pareceu-me ter um quadro mais completo.