O Squero de San Trovaso é um dos poucos estaleiros navais venezianos ainda ativos, no sestiere de Dorsoduro. Aqui, os squeraroli constroem e reparam gôndolas à mão, num edifício que faz lembrar uma casa de montanha. As visitas guiadas duram cerca de 30 minutos e são marcadas por email, sem bilhetes online.
– Gôndolas artesanais: cerca de 500 horas de trabalho e 8 tipos de madeira por embarcação.
– Arquitetura invulgar: telhado inclinado e formas ligadas às origens cadorinas dos mestres.
– Marcação direta: pedido por email para grupos e visitas guiadas.
– Como chegar: vaporetto linhas 2, 6, 10, 5.1, 5.2 e N; linha 16 para Zattere Gesuati.
Squero de San Trovaso: estaleiro histórico das gôndolas
No coração do sestiere de Dorsoduro, ao longo do rio San Trovaso, há um recanto que parece suspender o tempo: o Squero de San Trovaso, um dos últimos estaleiros navais ativos de Veneza. Não é um museu, e talvez seja precisamente aí que reside o seu encanto. Aqui ainda se constroem e se reparam gôndolas de madeira, com gestos transmitidos de geração em geração. Do exterior vê-se a fachada que lembra uma casa de montanha, o telhado inclinado e o movimento discreto dos artesãos. A vista a partir do rio, com as embarcações atracadas e a madeira deixada a secar, é mais autêntica do que muitos postais. Existem visitas guiadas, mas é necessário reservar: não conte com uma entrada de última hora. Para mim, é um daqueles lugares a ver sem pressa, de preferência com a curiosidade de perceber como nasce uma gôndola.
Breves notas históricas
O squero está
ativo já antes do século XVII; os primeiros testemunhos documentados remontam ao início do século XVII. A técnica de construção manteve-se quase inalterada e é transmitida de geração em geração, muitas vezes
sem projetos escritos. Um detalhe que ajuda a compreender o lugar: muitos mestres carpinteiros navais chegavam da zona do Cadore, e daí vinha também parte da madeira. Hoje, o Squero San Trovaso é um dos pouquíssimos squeri ainda operacionais em Veneza e concentra-se na construção e reparação de gôndolas. No passado, a atividade incluía também pupparini, sandoli, s’ciopóni e outras embarcações lagunares. Não é uma reconstrução para turistas: é um estaleiro verdadeiro, com serradura, ferramentas e trabalho manual.
- Antes do século XVII: estaleiro já ativo.
- Início do século XVII: primeiros testemunhos documentados.
- Hoje: poucos squeri operacionais, especialização em gôndolas.
Dentro do squero: a madeira que se transforma em gôndola
Aqui, o trabalho mede-se em horas e paciência: uma gôndola exige cerca de 500 horas de trabalho, oito tipos de madeira e mais de 200 peças cortadas e trabalhadas à mão, além de alguns elementos em ferro. Não se parte de um desenho industrial; parte-se da experiência. A forma final é assimétrica: o lado direito é mais estreito em 2,4 cm para compensar a posição do gondoleiro à esquerda. Visto de fora, parece um detalhe mínimo, mas altera o equilíbrio do barco. Os squeraroli trabalham em embarcações diferentes, mas a gôndola continua a ser a protagonista. As visitas guiadas duram cerca de 30 minutos e permitem conhecer de perto as técnicas artesanais; são organizadas por marcação através de e-mail. Não é um percurso muito longo, mas é concreto e específico.
Arquitetura de montanha na laguna
O que chama a atenção é a arquitetura: parece uma casa de montanha transplantada para a laguna. O telhado de duas águas não é uma escolha decorativa, serve para proteger a madeira e as embarcações da chuva. A forma invulgar explica-se também pelas origens na região do Cadore de muitos mestres artesãos e pela madeira que chegava dessas zonas. Para Veneza, é uma presença estranha, quase fora de escala. Da Fondamenta Nani observa-se o estaleiro do exterior: o rio, os barcos, a estrutura de madeira e o vaivém dos artesãos. Nem sempre é possível entrar, e isso tem de ser tido em conta. Mas também a vista da ponte revela muito. A mim, fez-me lembrar mais uma oficina de montanha do que um monumento da cidade: e é precisamente por isso que vale a pena parar.
O ferro de proa conta Veneza
O ferro de proa é um pequeno mapa simbólico de Veneza. As seis barras voltadas para a frente representam os seis sestieri; o ferro que olha para trás simboliza a ilha da Giudecca. O arco superior evoca a Ponte de Rialto, o inferior o Canal Grande. O topo chama-se “chapéu do Doge”. São detalhes que muitas vezes passam despercebidos enquanto se observa uma gôndola no Canal Grande, mas aqui podem ser observados com mais calma. Não espere painéis enormes ou explicações longas: o squero é um local de trabalho. Mas se levantar os olhos e olhar para a proa com atenção, a cidade torna-se uma história de metal. É a parte que mais me marcou, talvez porque transforma um objeto do quotidiano num símbolo.
Porque visitar
Há pelo menos três razões práticas. Primeira: ver um estaleiro verdadeiro, não uma reconstrução, onde ainda se trabalha em gôndolas e outras embarcações de madeira. Segunda: perceber quanto trabalho artesanal está por trás de uma gôndola, com 500 horas de trabalho, madeiras diferentes e mais de 200 peças. Terceira: a possibilidade de reservar uma visita guiada de cerca de 30 minutos por e-mail, sem bilhetes online. Além disso, é possível organizar passeios de bragozzo, uma típica embarcação histórica de pesca. Não é uma visita indicada para quem procura um percurso museológico longo; é curta e concreta. No entanto, se gosta de artesanato, vale a pena o desvio. Eu voltaria mais pela atmosfera do rio do que por um tour estruturado.
Quando ir
Não há uma hora mágica, mas eu escolheria uma manhã tranquila ou a luz baixa do final da tarde, quando o canal está menos caótico. A fachada e o telhado inclinado apreciam-se melhor com uma luz oblíqua, e do exterior percebem-se a madeira e os barcos sem a multidão das horas de maior movimento. Se chover, o ambiente ganha ainda mais um ar de oficina, mas as visitas têm de ser reservadas de qualquer forma. Evitaria os momentos em que Dorsoduro se enche de gente a caminho da Accademia. Num dia limpo, o contraste entre a água do canal e a estrutura escura do squero é a parte mais fotogénica. Não é preciso uma estação específica: basta um momento em que se possa ficar a observar.
Nos arredores
Ficando pela zona, há duas paragens que se conjugam bem com a visita. A primeira são as Gallerie dell’Accademia, mesmo ao lado: depois da madeira e das gôndolas, o passo até ao museu é natural. A segunda é a Coleção Peggy Guggenheim, outra referência de Dorsoduro. Se tiver tempo, faça também uma paragem ao longo do canal e no Campo San Trovaso, onde se percebe melhor a escala do bairro. Não indico distâncias nem tempos: em Veneza, tudo está mais perto do que parece, mas também é mais lento. A ideia é combinar artesanato e arte, sem pressas. Gosto de pensar nesta zona como um percurso informal entre oficinas, água e museus.