O que ver em Benevento: Arco de Trajano, Santa Sofia e muito mais

🧭 O que esperar

  • Ideal para apaixonados por história, arqueologia e cultura
  • Pontos fortes: Arco de Trajano, Santa Sofia (UNESCO), Teatro Romano, Museu das Bruxas
  • Recomendado: primavera e outono para clima ameno
  • Imperdível: o Hortus Conclusus e a Igreja de Sant’Ilario

Benevento é uma cidade que encanta com sua história estratificada, dos esplendores romanos à Idade Média longobarda. O símbolo por excelência é o Arco de Trajano, um dos arcos triunfais mais bem preservados da Itália, que domina a entrada do centro histórico. A poucos passos, a Igreja de Santa Sofia, patrimônio UNESCO, com sua planta estrelada e afrescos medievais. O Teatro Romano e o Anfiteatro testemunham a importância da cidade na época imperial, enquanto o Museu do Sannio reúne preciosos achados. Passeando, encontram-se a Ponte Leproso, o Arco do Sacramento e o Obelisco do templo de Ísis, que lembram o culto egípcio. Para um toque de mistério, o Janua – Museu das Bruxas revela as tradições ligadas à feitiçaria. Não perca o Hortus Conclusus, um jardim artístico, e a sugestiva Igreja de Sant’Ilario a Port’Aurea. Cada canto de Benevento conta séculos de história, tornando-a um destino ideal para os apaixonados por arqueologia e cultura.

Visão geral



Itinerários nas proximidades


Arco de Trajano: Uma obra-prima romana

Arco de TrajanoSe há um monumento que conta Benevento num relance, é o Arco de Trajano. Construído entre 114 e 117 d.C., este arco celebrativo não é apenas um pedaço de história: é o símbolo da cidade, e há uma razão para ser considerado o arco triunfal romano com os relevos mais bem preservados do mundo. Com 15,60 metros de altura e 8,60 de largura, é feito de blocos de calcário revestidos de mármore pário. Mas a verdadeira magia está nos baixos-relevos: de um lado, cenas de guerra e conquistas; do outro, a paz e a administração. É como ler uma história em quadrinhos sobre a vida de Trajano. Durante a Idade Média, os lombardos o usaram como Porta Aurea das muralhas, salvando-o assim do esquecimento. Hoje, você o encontra no final da via Traiano, a dois passos do centro. Desde 2024, é patrimônio UNESCO (parte da Via Ápia). A visita é gratuita, 24 horas por dia, mas recomendo ir de manhã cedo ou ao pôr do sol: a luz realça aqueles mármores. E não se esqueça de olhar a inscrição no ático: é idêntica em ambos os lados, um detalhe que diz muito sobre a simetria romana. Em suma, um lugar que o faz sentir-se pequeno diante da grandeza de um império.

Arco de Trajano

Igreja de Santa Sofia: uma obra-prima lombarda entre história e arquitetura

Igreja de Santa SofiaEntrar na Igreja de Santa Sofia em Benevento é como dar um salto de mais de doze séculos. Fundada por volta de 760 pelo duque lombardo Arechi II, esta igreja é uma das joias da arquitetura altomedieval na Itália e, desde 2011, faz parte do sítio UNESCO ‘Longobardos na Itália: os lugares do poder’. Sua forma é única: uma planta estrelada composta por um hexágono central de colunas (provavelmente retiradas do antigo templo de Ísis) que sustentam a cúpula, rodeado por um anel decagonal. O jogo de luz e sombra que se cria é sugestivo, com abóbadas irregulares que mudam a cada passo. Após os terremotos de 1688 e 1702, a igreja foi restaurada em estilo barroco, mas uma intervenção em 1957 trouxe à luz parte da aparência lombarda. A fachada barroca, com seu portal românico e a luneta do século XIII representando Cristo entre a Virgem e santos, esconde no interior fragmentos de afrescos dos séculos VIII-IX: o Anúncio a Zacarias, Zacarias mudo, a Anunciação e a Visitação, obras ligadas à Escola de miniatura beneventana. Ao lado, o claustro românico (parte do Museu do Sannio) merece uma visita. A igreja está aberta todos os dias com entrada gratuita: de manhã das 8h às 12h e à tarde das 16h30 às 20h (horário de verão). Um lugar que, apesar das dimensões reduzidas (cerca de 24 metros de diâmetro), proporciona emoções intensas a quem ama a história e a arte.

Igreja de Santa Sofia

Teatro Romano de Benevento: uma joia da era adriânica

Teatro RomanoSe estiveres em Benevento, o Teatro Romano é uma paragem obrigatória. Passeando pelas ruelas do Rione Triggio, deparas-te com este antigo edifício inaugurado entre 125 e 128 d.C. pelo imperador Adriano, embora as obras tivessem começado sob Trajano. Com um diâmetro de 98 metros e capacidade para cerca de 15.000 espectadores, era um dos maiores teatros de Itália. Hoje recebe-te com a sua estrutura semicircular em opus caementicium, revestida a calcário e tijolo. Da fachada original de três ordens (toscana, jónica, coríntia) resta apenas a ordem inferior com 25 arcadas, emolduradas por semicolunas toscanas. As chaves de arco eram decoradas com bustos e máscaras teatrais, algumas ainda visíveis no centro histórico.

Ao entrares, notarás a cávea bem conservada e o frontescénio com três portas monumentais. Nas laterais, duas aulae: uma ainda conserva parte do revestimento de lajes de mármore policromado, um detalhe que te faz imaginar o esplendor original. O teatro foi restaurado na época severiana (como recorda uma dedicatória a Caracala), mas caiu em desuso no século IV. Na Idade Média, construíram-se casas sobre ele e, em 1782, até a igreja de Santa Maria della Verità.

A redescoberta começou em 1890 graças ao arquiteto Almerico Meomartini, que financiou as primeiras escavações. Após longos trabalhos, o teatro reabriu ao público em 26 de junho de 1957 com o espetáculo *As Mulheres no Parlamento* de Aristófanes. Desde então, voltou a ser o coração cultural da cidade, acolhendo temporadas líricas, concertos e eventos como Miss Itália 1990 e o Festivalbar 2001. A acústica é tão excelente que ainda hoje se realizam espetáculos teatrais e musicais.

Se quiseres visitá-lo, o endereço é Piazza Ponzio Telesino. Aberto todos os dias: das 9:00 às 17:40 (inverno) ou 19:20 (verão). Bilhete inteiro €5, reduzido €2, e muitas vezes há aberturas noturnas durante a mostra “Benevento Città Teatro”. Leva contigo a curiosidade: por baixo das arquibancadas, dois ambuláculos paralelos funcionam como caixa de ressonância, e as escadas atrás do palco eram a entrada dos artistas. Um lugar que sabe a história e espetáculo, tudo para descobrir.

Teatro Romano

Rocca dos Reitores: um mergulho na história de Benevento

Rocca dos ReitoresEmpoleirada no ponto mais alto do centro histórico de Benevento, a Rocca dos Reitores é muito mais do que uma fortaleza: é uma viagem no tempo que começa no século VIII a.C. Sim, porque aqui existia uma necrópole etrusca, depois um terrapleno samnita e, sob os romanos, um castellum aquae – cujos restos ainda são visíveis no jardim. Mas o verdadeiro destaque é o Torreão Lombardo, com 28 metros de altura e planta poligonal, que domina a bacia abaixo. Ao lado, o Palácio dos Governadores Pontifícios (encomendado pelo Papa João XXII em 1321) desenvolve-se em três andares, com amplos salões de tetos de madeira e decorações setecentistas. Durante séculos, até 1865, a rocca foi prisão: um forte contraste, considerando que hoje é sede da Província e abriga a seção histórica do Museu do Sannio, com peças que contam a vida desta terra.

Passeando pelo jardim, entre pinheiros e palmeiras, encontrará um lapidário romano com miliários da Via Trajana e fragmentos arquitetônicos. Em frente à entrada, o Leão de 1640 monta guarda: foi erguido em homenagem ao Papa Urbano VIII e simboliza a força dos Samnitas. Suba ao terraço: a vista do Monte Taburno é de cartão-postal. A entrada é gratuita (seg-sex 7:00-13:00) e, se você é fã de histórias de fantasmas, fique atento às noites de lua cheia: diz-se que o fantasma do reitor Andreone degli Artusini, decapitado em 1511, ainda vagueia pela fortaleza.

Rocca dos Reitores

Museu do Sannio

Museu do SannioSe você quer entender Benevento, precisa passar pelo Museu do Sannio. Instalado no complexo de Santa Sofia (Patrimônio da UNESCO desde 2011), este museu conta a história da cidade desde as origens até o século XX. É um lugar que você não espera: começa no claustro românico do século XII, com capitéis que parecem sussurrar segredos medievais, e depois se depara com artefatos antiquíssimos. A seção arqueológica é fantástica: estátuas romanas, cerâmicas samnitas e, principalmente, os artefatos do Templo de Ísis, com esculturas egípcias únicas fora do Egito. Depois sobe e mergulha na seção lombarda: armas, joias e moedas que contam quando Benevento era capital da Langobardia Menor. E não acaba aqui: a pinacoteca tem obras de Giordano, Guttuso e até um baixo-relevo de Pericle Fazzini com a dança das bruxas. O bilhete único (6 €) vale dois dias e inclui também o Museu Arcos e Sant’Ilário. Aberto ter-dom 9-19, fechado às segundas. Conselho: comece por aqui, depois vá ver Santa Sofia e o Arco de Trajano: parecerá que você lê a cidade com novos olhos.

Museu do Sannio

Anfiteatro romano de Benevento, um gigante ainda por descobrir

Anfiteatro romano de BeneventoO Anfiteatro romano de Benevento é um dos monumentos mais fascinantes e menos conhecidos da cidade. Descoberto apenas em 1985, durante a demolição de um edifício fascista, jaz em grande parte ainda enterrado entre a via Munanzio Planco e a ponte Leproso. Ainda assim, as suas dimensões são de recorde: 160 metros por 130, com uma altura de cerca de 25 metros e capacidade estimada de 30.000 espectadores, quase como o Coliseu. Construído entre o século I a.C. e o I d.C., já era citado por Tácito pela visita do imperador Nero em 63 d.C., que veio propositadamente para assistir a um munus gladiatorio. Aqui treinavam os gladiadores do Ludus Magnus, a mais importante escola da época, e a cidade era um cruzamento da Via Ápia. Depois, terremotos e descuido: a erupção do Vesúvio de 472 encontrou o anfiteatro já sem coberturas, e nos séculos seguintes tornou-se uma pedreira de materiais – tanto que 56 colunas da Catedral de Benevento provêm daqui. Hoje, após anos de abandono entre trilhos ferroviários e vegetação, um projeto de 900.000 euros (fundos Pnrr “Regina Viarum”) promete transformá-lo num parque urbano com passarelas, iluminação LED e percursos arqueológicos. A data de abertura não é certa, mas a esperança é grande. Entretanto, no Museu do Sannio pode-se admirar o relevo do Gladiador de Benevento, um hoplomachus em plena ação, enquanto outros fragmentos ainda estão incrustados nos campanários de Santa Sofia e da Catedral. Um pedaço de história que só espera ser redescoberto.

Anfiteatro romano de Benevento

Ponte Leproso: a antiga entrada romana de Benevento

Ponte LeprosoSe pensa que as pontes romanas são todas iguais, o Ponte Leproso vai fazê-lo mudar de ideias. Construído no século III a.C. por Ápio Cláudio Cego para permitir a passagem da Via Ápia sobre o rio Sabato, é uma das pontes de alvenaria mais antigas ainda de pé, juntamente com a Ponte Mílvia. Mas aqui há uma atmosfera diferente: as suas cinco arcadas originais (hoje reduzidas a quatro após as restaurações setecentistas) e a característica forma de dorso de burro tornam-na quase de conto de fadas. O nome curioso – “Leproso” – vem de um leprosário medieval, mas até ao século XI chamava-se Ponte Marmóreo (ou Lapídeo) pelo revestimento em travertino. Passeando por cima, notam-se os sinais do tempo: o pilar original em opus quadratum com bossagens rústicas, os elementos de reutilização (talvez do Arco de Trajano), e as aberturas de alívio para as cheias. Desde 2004 está fechado ao trânsito, por isso podem atravessá-lo com calma, imaginando os exércitos e os viajantes que o pisaram – de Cícero a Manfredo da Suábia, que segundo alguns historiadores morreu precisamente aqui em 1266. É um daqueles lugares que fazem sentir o peso da história, mas sem retórica: simples, autêntico e incrivelmente preservado.

Ponte Leproso

Igreja de Sant’Ilario a Port’Aurea: uma joia longobarda à sombra do Arco

Igreja de Sant'Ilario a Port'AureaBem ao lado do Arco de Trajano, num prado cercado, encontra-se um pequeno tesouro de história: a ex-igreja de Sant’Ilario a Port’Aurea. Construída pelos Longobardos entre os séculos VII e VIII, ergue-se sobre ruínas romanas – debaixo do pavimento ainda se veem as estruturas da época imperial. Do exterior, chamam a atenção as duas torres desniveladas com telhado de telhas: por dentro, escondem duas cúpulas alinhadas, uma raridade arquitetônica. O interior é despojado e sem pavimento, mas uma passarela de madeira permite atravessá-lo e admirar as escavações.

Durante séculos foi primeiro mosteiro beneditino, depois dessacralizada e transformada em celeiro e estábulo após o terremoto de 1688. Somente em 2003, após uma restauração radical, voltou à vida. Hoje abriga o Videomuseu do Arco: um filme de meia hora projetado nas paredes conta a história do Arco de Trajano e explica as cenas esculpidas no mármore. Uma forma imersiva de entender um dos monumentos mais importantes de Benevento.

Ao redor, veem-se os restos do mosteiro e tumbas medievais. O lugar é tranquilo, pouco frequentado, e proporciona uma atmosfera suspensa entre épocas diferentes. Se passar por aqui, pare: Sant’Ilario é uma daquelas joias que torna uma viagem especial.

Igreja de Sant’Ilario a Port’Aurea

Arco do Sacramento: a antiga entrada do Fórum de Benevento

Arco do SacramentoO Arco do Sacramento é um daqueles monumentos que, à primeira vista, parece quase escondido entre as ruas do centro histórico de Benevento. No entanto, basta parar um momento para perceber o quão imponente ele é. Datado entre o final do século I e o início do século II d.C., este arco romano era a entrada principal para a área do Fórum pelo lado sul, bem ao lado do Teatro Romano. Hoje, ele se ergue sobre a Via Carlo Torre, na esquina com o Palácio Arquiepiscopal. Sua estrutura é simples, mas poderosa: dois pilares em opus latericium sobre bases em opus quadratum, um diâmetro de cerca de 5 metros e um arco de descarga em tijolos. Infelizmente, o revestimento de mármore original desapareceu quase completamente, assim como as estátuas que outrora adornavam os nichos laterais. Mas não é só isso: durante as escavações para os restauros, que culminaram em 2009 com a abertura de um percurso arqueológico urbano (custo: quase 5 milhões de euros), ressurgiu um complexo termal tardo-romano. Hoje, é possível caminhar sobre passarelas metálicas entre antigas paredes em opus mixtum e reticulatum. A área também é sede de eventos culturais de verão, como o festival em homenagem a Alessandro Verdicchio, com música, teatro e oficinas. O nome “do Sacramento” provavelmente deriva do seu reaproveitamento na época cristã, quando servia como entrada para o castellum episcopal. Durante um restauro em 1633-1635, encomendado pelo arcebispo Agostino Oregio, foi adicionado um coroamento superior. A visita é gratuita, mas se quiser entender profundamente a história, um guia pode fazer a diferença. Imperdível: combine-o com o Arco de Trajano e o Teatro Romano para um mergulho completo na Benevento antiga.

Arco do Sacramento

Hortus Conclusus: o jardim secreto de Mimmo Paladino

Hortus ConclususNo coração do centro histórico de Benevento, escondido atrás do Convento de São Domingos, há um lugar que parece suspenso no tempo: o Hortus Conclusus. Realizado em 1992 pelo artista Mimmo Paladino, este jardim murado é uma instalação permanente que une esculturas contemporâneas, símbolos antigos e vegetação exuberante. Ao entrar, você é recebido pelo som da água que corre de um enorme disco de bronze cravado no chão – parece um escudo, mas é uma fonte. Numa das paredes destaca-se um cavalo com máscara dourada, que remete ao mito de Agamemnon e ao Cavalo de Troia. Ao redor, outras obras: um humanoide com braços muito longos, crânios de boi, elmos, conchas. O efeito é desconcertante, mas relaxante. A entrada é gratuita e o jardim está aberto de terça a domingo, das 9h30 às 20h (fechado às segundas). O piso de pedra irregular lembra as vielas antigas, e as plantas – rosas, lírios, palmeiras – têm significados simbólicos (pureza, renascimento). É um lugar perfeito para uma pausa para reflexão, longe da confusão. Se você está em Benevento para o Arco de Trajano ou Santa Sofia, não perca esta joia contemporânea: ela fará você ver a cidade com outros olhos.

Hortus Conclusus

Obelisco do templo de Ísis: um pedaço do Egito em Benevento

Obelisco do templo de ÍsisSe você passeia pela Piazza Papiniano, logo nota um monólito de granito vermelho com cerca de três metros de altura. É o obelisco do templo de Ísis, um dos dois que outrora ladeavam a entrada do Iseu mandado construir pelo imperador Domiciano entre 88 e 89 d.C. Esculpido no Egito (granito de Assuã), pesa 2,5 toneladas e exibe em todas as quatro faces hieróglifos que celebram a deusa Ísis como ‘senhora de Benevento’ e mencionam o fundador Lucílio Lupo, um funcionário imperial.

A história é quase novelesca: o obelisco permaneceu na Piazza Duomo desde 1597, mas foi transferido para cá apenas em 1872. Na década de 2010, o Paul Getty Museum de Los Angeles o restaurou (voltou a Benevento em outubro de 2018) e o expôs numa mostra sobre o Egito clássico. Hoje é o símbolo mais visível da ligação entre Benevento e o Egito antigo, algo único fora da terra dos faraós.

Não perca a oportunidade de tocar a história com as mãos: o obelisco é fácil de alcançar, no centro da cidade. Sua superfície lisa e as inscrições bem legíveis farão você se sentir um explorador. E se você se interessar, no Museu do Sannio encontra o outro obelisco (mutilado) e estátuas de faraós e divindades. Enfim, um pedaço do Egito a dois passos de casa.

Obelisco do templo de Ísis

Boi Ápis: o misterioso touro egípcio de Benevento

Boi ÁpisCaminhando pela Viale San Lorenzo, em direção à basílica da Madonna delle Grazie, você encontrará uma estranha estátua de granito vermelho: é o Boi Ápis, um artefato egípcio que os beneventanos chamam carinhosamente de ‘a vùfera (a búfala). Descoberta por acaso em 1629 perto do rio Sabato, na localidade Casale dei Maccabei, a escultura foi imediatamente colocada em frente à antiga Porta San Lorenzo. O governador pontifício Arcasio Ricci mandou gravar uma inscrição em latim que a definia como “búfalo, preservado como monumento da fortuna bélica dos Samnitas” – mas a história é mais complicada.

O egiptólogo francês Émile Étienne Guimet interpretou-a como o deus egípcio Ápis, ligando-a ao templo de Ísis construído pelo imperador Domiciano entre os séculos I e II. Outros estudiosos, como Hans Wolfgang Müller, questionaram: faltam o disco solar entre os chifres, os genitais não estão esculpidos e as patas dianteiras estão alinhadas, não em movimento como nas representações egípcias clássicas. Talvez seja uma obra do final do império, de fatura grosseira, que perdeu as características distintivas.

Hoje, o Boi Ápis encontra-se em estado de abandono: ervas daninhas, rachaduras na base, nenhuma iluminação. Em 2009, propuseram movê-lo para perto de Santa Sofia, mas os moradores se opuseram. Permanece ali, orgulhoso e maltratado, testemunha silenciosa do culto isíaco que era fortíssimo em Benevento. Se passar, pare: é uma peça única de história, embora um tanto negligenciada.

Boi Ápis

Janua – Museu das Bruxas

Janua - Museu das BruxasLocalizado no coração de Benevento, dentro do Palazzo Paolo V na Corso Garibaldi, o Janua – Museu das Bruxas é um mergulho no folclore local. Inaugurado em 2017 pela Cooperativa I.D.E.A.S., o museu explora o mundo das janare, as bruxas beneventanas que, segundo a lenda, se reuniam sob uma antiga nogueira às margens do rio Sabato. O percurso expositivo é dividido em seções: ‘Escongiurar’ exibe amuletos e objetos protetivos; ‘Olho mau-olhado’ mostra rituais contra o mau-olhado; ‘Curar’ é dedicada às ervas curativas e à medicina popular. Não falta uma instalação de vídeo imersiva com uma nogueira artificial, que reproduz a atmosfera dos sabás. A coleção inclui santinhos, ex-votos, pão antropomórfico, tesouras, bonequinhas apotropaicas e ‘brevi’ (saquinhos protetivos). O símbolo do museu é uma sereia bicaudada, que remete ao culto da Deusa Mãe. O ingresso custa 5 € (3 € para estudantes e grupos de pelo menos 25 pessoas). Aberto às quartas, sextas, sábados e domingos das 10:00 às 13:00 e das 16:00 às 19:00. Uma experiência que entrelaça história, magia e tradição, perfeita para quem deseja descobrir um lado incomum de Benevento.

Janua – Museu das Bruxas

Fonte das Correntes: história e encanto barroco em Benevento

Fonte das CorrentesNo coração de Benevento, na praça Orsini, encontra-se a Fonte das Correntes, uma joia barroca que conta séculos de história. O nome? Vem das correntes de ferro que a cercam, outrora usadas para regular a água. A fonte foi encomendada pelo arcebispo Vincenzo Maria Orsini em 1705 e realizada pelo arquiteto Nicola Colle De Vita, provavelmente a partir de um desenho de Carlo Buratti. Em 1778, os cidadãos quiseram adicionar no topo a estátua do papa Bento XIII, ainda hoje visível. Depois veio a guerra: os bombardeios de 1943 danificaram gravemente tanto a fonte quanto a estátua. Foram necessários anos de restauro (a cargo de Giovanni Sparla) antes de vê-la novamente intacta, e a estátua voltou ao seu lugar apenas em 1992. Hoje a fonte é um ponto de encontro autêntico. Ainda funciona: você verá os locais encherem garrafas de água no bico central. O tanque é de pedra, com grades baixas de ferro oxidado, e ao redor a praça é calçada com paralelepípedos, com palácios barrocos formando um cenário. É um lugar perfeito para uma pausa, longe da agitação. No verão, a água fresca é uma bênção; no inverno, o ambiente é acolhedor. Se você estiver aqui, não perca a oportunidade de sentar um momento e observar: a Fonte das Correntes é uma daquelas coisas que tornam Benevento especial.

Fonte das Correntes

Santos Quarenta: o criptopórtico romano esquecido

Santos QuarentaPasseando perto da ponte Leproso, deparei-me com um lugar que parece saído do tempo: os Santos Quarenta. Não é fácil de encontrar – desce-se por um beco íngreme chamado via Ursus – mas o esforço compensa. Estamos diante dos restos de um criptopórtico romano do século I d.C., um corredor coberto de 60 metros com paredes em opus quase reticulatum e janelas em arco. A estrutura, que na época romana provavelmente funcionava como mercado ou fórum, foi reutilizada na Idade Média: sobre um dos corredores laterais foi construída uma igreja dedicada aos quarenta mártires de Sebaste, e os ambientes hipogeus tornaram-se um cemitério (o carnário citado pelo cronista Falcone em 1128).

Os bombardeios de 1943 e décadas de abandono deixaram marcas, mas desde 2015 um grupo de voluntários limpou a área e devolveu dignidade ao sítio. Hoje é possível visitar os três corredores sobreviventes, admirar os arcos lombardos em tufo e, com um pouco de sorte, participar de reconstituições históricas. Durante a restauração dos anos 1980, vieram à luz sepulturas lombardas e uma moeda de 1287 – sinal de que o lugar foi frequentado por séculos. A atmosfera é sugestiva: o silêncio quebrado apenas pelo vento, a luz que filtra pelas frestas, a sensação de estratificação histórica. Um lugar que recomendo a quem busca algo autêntico, longe dos circuitos turísticos tradicionais.

Santos Quarenta