Catacumbas de São João: Siracusa subterrânea

As Catacumbas de São João são o mais vasto complexo paleocristão subterrâneo de Siracusa, escavado entre 315 e 360 d.C. e utilizado até ao fim do século V. Visitam-se apenas com guia e incluem galerias, lóculos, arcosólios, quatro rotundas e a Cripta de São Marciano, sob a Basílica de São João. O percurso dura cerca de uma hora, une arqueologia e fé das primeiras comunidades cristãs e faz parte do Siracusa Visitor Pass.
– Decumanus maximus obtido de um antigo aqueduto grego.
– Rotunda de Adélfia e sarcófago com 62 figuras bíblicas (hoje no Museu Paolo Orsi).
– Cripta de São Marciano, ligada ao primeiro bispo de Siracusa.
– Experiência multimédia e visita guiada mediante reserva.


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Copertina itinerario Catacumbas de São João: Siracusa subterrânea
Sob a Basílica de São João, em Siracusa, o mais vasto cemitério paleocristão da Sicília: decúmano, lóculos, arcosólios, rotundas e a Cripta de São Marciano. Visita guiada e dicas práticas.

Informações importantes


Catacumbas de São João: a Siracusa subterrânea

As Catacumbas de São João são a Siracusa que não esperas: sob a cidade, perto do Parque Arqueológico de Neápolis, abre-se um labirinto de rocha calcária ao longo de um eixo principal, o decumanus maximus, de que se ramificam galerias e salas redondas. Não são um esconderijo para perseguidos, mas um verdadeiro cemitério paleocristão, usado entre os séculos IV e V d.C. e ligado à memória de São Marciano, primeiro bispo de Siracusa. A entrada é apenas com visita guiada e o impacto visual é forte: lóculos, arcossólios, inscrições e frescos formam uma espécie de Bíblia ilustrada na penumbra. O ar é fresco e húmido, o silêncio só é quebrado pelos passos. A mim, fez-me lembrar uma cidade paralela, silenciosa, onde cada nicho conta a história de uma família, de um bispo, de uma mulher importante. É o maior cemitério paleocristão da Sicília. Prepara-te para descer: aqui a história não se observa de longe, atravessa-se.

Notas históricas

A área nasce como latomia grega, depois oficina de oleiros em época tardo-helenística. Em época tardo-imperial, torna-se área cemiterial cristã: as catacumbas datam de entre 315 e 360 d.C., após a Paz da Igreja, e permanecem em uso até ao final do século V. Seguem o traçado de um antigo aqueduto grego, com cisternas transformadas em rotundas. Em 310 d.C. é aí sepultado temporariamente o papa Eusébio, morto no exílio em Siracusa. Em meados do século VI nasce a Cripta de São Marciano. Por cima, a basílica de três naves com 12 colunas dóricas simboliza os apóstolos. Durante o cerco árabe de 878, o comandante Giafar ibn Muhammad instala aqui o seu acampamento. Em 1693 o terramoto danifica a igreja, reparada em 1705-1706. Entre 1893 e 1909 Paolo Orsi estuda o conjunto.

  • Século IV: origem paleocristã.
  • 310: sepultura temporária do papa Eusébio.
  • Século VI: cripta de São Marciano.
  • 878: acampamento árabe.
  • 1693: terramoto; 1705-1706: novo pórtico.
  • 1893-1909: campanhas de Paolo Orsi.

Dentro do decúmano: lóculos, arcossólios e rotundas

A visita segue um percurso circular abaixo do nível da rua. O coração é o decumanus maximus, obtido a partir do aqueduto clássico: na abóbada ainda se veem vestígios do conduto. Daqui partem cinco cardines a norte e cinco a sul, que levam a quatro salas redondas, antigas cisternas: Rotunda de Antioquia, Rotunda Marina, Rotunda de Adelphia e Rotunda dos Sarcófagos. As paredes estão repletas de lóculos, nichos retangulares fechados com telhas ou placas de pedra, e de arcossólios, túmulos em arco para famílias ou personalidades ilustres. Há uma peculiaridade siracusana: alguns arcossólios podiam acolher até vinte lugares. Não faltam as formas, sepulcros escavados no piso. Numa galeria secundária, vejo uma arca com três furos na laje: servia para o refrigerium, o banquete funerário com vinho, leite e mel derramados em favor da alma. Caminhar por aqui dá vertigens, no bom sentido.

A Cripta de São Marciano e a Basílica

A Cripta de São Marciano é uma igreja subterrânea de três ambientes, usada primeiro para sepultamentos e depois para a liturgia. Chega-se a ela a partir da basílica por uma escadaria medieval. Aqui se venera o sepulcro do primeiro bispo de Siracusa, Marciano, martirizado no século III; segundo a tradição, o apóstolo Paulo teria pregado na cripta. O altar é rodeado por quatro colunas e, em época normanda, o espaço central foi modificado com pilares e capitéis decorados com os símbolos dos evangelistas. Nas paredes restam afrescos com Lúcia, Marciano, João Batista, a Virgem, apóstolos e eremitas. Pouco acima, a Basílica de São João Evangelista apresenta duas fachadas, uma normanda e uma barroca, e colunas de reutilização provenientes de um templo pagão. A rosácea central é normanda; o pórtico é gótico-catalão. A nave central conserva a atmosfera da primitiva igreja bizantina. Aqui Caravaggio, durante a sua estadia em Siracusa, encontrou inspiração para o Sepultamento de Santa Lúcia.

O sarcófago de Adélfia e os símbolos ocultos

Na Rotunda de Adélfia, em 1872 foi encontrado um sarcófago de mármore esculpido em Roma com 62 figuras bíblicas e dois bustos de cônjuges ao centro. Continha o corpo de Adélfia, esposa do procônsul Valério; hoje está no Museu Regional Paolo Orsi. A inscrição na tampa menciona apenas ela. Na Rotunda Marina, um breve corredor conserva um grafito com monograma e dois barcos estilizados em forma de peixe: assinala o túmulo do bispo Siracosio. Para os primeiros cristãos, o barco era a Igreja na tempestade, enquanto o peixe é o Ichthys, acrónimo grego de «Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador». Na região oriental há um arcossólio pintado em várias camadas: em cima, a falecida acolhida por Pedro e Paulo num jardim paradisíaco, com Cristo a colocar-lhe uma coroa; em baixo, uma inscrição de oito linhas do irmão Siracosio. Aqui, os símbolos não são decoração: são mensagens para quem sabia ler.

Por que visitar

Primeiro motivo: é o mais vasto cemitério paleocristão da Sicília, com galerias de centenas de metros, uma planta regular e salas redondas que não se esperam numa catacumba. Segundo: é a única catacumba de Siracusa aberta ao público e totalmente explorada, por isso pode realmente entrar na história sem precisar de a imaginar demasiado. Terceiro: o bilhete inclui a visita guiada e uma experiência multimédia ou de realidade virtual que reconstrói os ambientes originais, útil para perceber como se apresentavam. Além disso, o complexo está ligado a São Marciano, ao Papa Eusébio e ao culto de Santa Luzia, por isso fala também com quem não é arqueólogo. Os preços, sujeitos a alteração, são 12 € bilhete normal mais 2 € de taxa, 9 € bilhete reduzido mais 2 € de taxa, grátis para menores de 6 anos. Use calçado fechado e leve um casaco: lá em baixo está fresco e o pavimento pode estar húmido.

Quando ir

Não é preciso escolher uma estação específica: o ideal é um dia sem sol escaldante, quando lá fora está abafado e debaixo da rocha está-se fresco. O contraste entre a luz encandeante de Siracusa e a penumbra húmida das galerias faz parte do encanto. É melhor evitar as horas centrais dos dias mais quentes, porque o percurso é todo a descer e a subir, e o ar interior é mais fresco. Se puderes, escolhe um momento em que não haja grupos demasiado numerosos: o silêncio torna as inscrições e os frescos mais legíveis. A visita é guiada e a horários fixos, por isso verifica antes a disponibilidade e a reserva. Em todo o caso, leva um casaco leve: a temperatura subterrânea é constante e mais baixa do que no exterior. E sapatos com sola sulcada, porque o chão pode estar húmido. Assim, aproveitas sem pensar no calor.

Nos arredores

Fora das catacumbas, o bairro da Neapolis continua a surpreender. No mesmo bairro fica o Parque Arqueológico da Neapolis, com o teatro grego, o anfiteatro romano e a Orelha de Dionísio: uma combinação natural com a Siracusa subterrânea. Se ainda tiver curiosidade sobre os achados, o Museu Regional Paolo Orsi conserva o sarcófago de Adélfia e materiais que ajudam a recompor a história do sítio. Outra ideia é caminhar até Ortigia, passando pelo centro histórico, para fechar o dia com o mar e as ruelas barrocas. Se o tema o cativar, em Siracusa existem também as catacumbas de Santa Lúcia e as de Vigna Cassia e do Menino Jesus, mas nem sempre estão abertas da mesma forma. É melhor informar-se antes. Nós limitámo-nos ao complexo de São João, e só com isto parece que vimos outra cidade.

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💡 Talvez você não soubesse que…

Na Rotunda Marina há um grafito com dois barcos em forma de peixe: para os primeiros cristãos, significava a Igreja na tempestade e o acrónimo grego ICTUS, ‘Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador’. Numa galeria secundária, uma laje com três furos servia para o refrigerium, o banquete funerário em que se vertiam vinho, leite e mel pela alma do defunto. Aqui foi sepultado temporariamente o papa Eusébio, que morreu no exílio em Siracusa em 310.